— Alô?
—Oi.
— Eu nem ia atender.
—Eu nem ia ligar.
— O que você quer? Faz menos de 20 minutos que a gente se viu.
—Eu sei. Você esqueceu seu cd, tá comigo. Vem buscar?
— Hoje não. Amanhã eu passo aí e pego.
—Tá.
— Posso desligar?
—Não.
— Você quer que eu diga alguma coisa?
—Pode ficar quieto, não me importo.
(Ele ri do outro lado) — Quer que eu fique mudo?
—Quero.
(silêncio)
—Tô ouvindo você respirar, é bonitinho.
— Você me assusta.
—Você me assusta.
— Eu?
—É.
— Porque? Sou um monstro agora?
—Quase isso.
— Vou desligar.
—Não, fala comigo.
— Tô com sono, me deixa dormir.
—Não posso te deixar dormir, você nunca me deixa dormir.
— Você gosta de mim.
—Gosto.
— Sou irresistível.
—E gostosa.
— Então você não me ama, o nome disso é tesão.
—Pode ser, eu ainda não sei o nome.
— Como você não sabe nomear o que sente?
—Vou chamá-lo de corda.
— Corda?
—Tá me sufocando.
— É uma piada?
—Não.
— Tô com mais sono ainda.
—Porque você faz isso?
— Isso o que?
—Me faz te querer tanto assim, não é normal. Eu roubei uma calcinha tua, e escrevi meu nome. Agora você vai me amar pelos próximos 70 anos.
—Isso é o que? Macumba? — Ela dá gargalhadas.
— Aprendi na internet. E dá certo.
—Se eu roubar uma cueca tua e escrever meu nome? Você vai me amar pelos próximos 70 anos?
— Não.
— Não?
— Não.
— Porque?
— Por que minha sentença já foi dada. Eu vou te amar pelos próximos 100 anos.
É quase uma prisão perpétua.
— Eu não ligo.
— Mas eu ligo.
— Posso desligar agora? Foi romântico e tudo.
— Agora pode.
— Posso?
— Pode.
— Jura que você não vai vir com aquele papo de “desliga você primeiro”?Isso é ridículo, e só namorados fazem isso.
— Quer namorar comigo?”